<font color=0094E0>O camarada Michel</font>
Ao longo deste trabalho com que o Avante! comemora o 80.º aniversário de Michel Giacometti, fui dando conta, lendo aqui e ali algumas referências à vida e à obra do etnólogo, que alguns divulgadores-biógrafos, como tantas vezes acontece quando estão em causa personalidades que se distinguiram, tiveram «dificuldades» em admitir que se tratava de um comunista, membro do PCP.
Como em determinado tempo da minha juventude tive oportunidade de privar com Giacometti e de, mais tarde, poder revê-lo após o 25 de Abril e assim recordar com ele peripécias do seu trabalho passado e, sobretudo, de conversarmos sobre o processo revolucionário que então decorria, acompanhando-o de quando em vez numa ou noutra viagem, julgo oportuno deixar algumas precisões.
Que o Michel era comunista, embora no tempo do fascismo não pudéssemos, entre ambos, afirmá-lo, dadas as razões que obrigavam militantes e simpatizantes aos mais rigorosos cuidados conspirativos, foi coisa que sempre dei como certo. Recordo a sua viva simpatia pela revolução cubana, as confidências sobre como encarava o fascismo e a situação política em Portugal, a amizade e o trabalho que o ligavam ao Fernando Lopes-Graça, as cautelas, por um lado, que tomava acerca da apertada vigilância de que era alvo e, por outro lado, os comentários políticos que fazia. Para mim, jovem militante comunista, o Michel era um correlegionário.
Após o 25 de Abril muitas vezes o vi na Soeiro Pereira Gomes, onde vinha para um encontro ou uma reunião. E lembro-me mesmo da primeira vez que o encontrei na sala de convívio e de ter-lhe perguntado se já se havia inscrito no Partido. Disse-me que não. E explicou que nessa altura, a legislação – que a Revolução entretanto não modificara -, não permitia que um estrangeiro fosse membro de um qualquer partido em Portugal. Ao que me contou, a participação que teve em manifestações populares foi mesmo alvo de advertência por parte da polícia portuguesa.
Entretanto, o trabalho que desenvolvia, e que muitos camaradas acompanhavam de perto por iniciativa do próprio Giacometti, pressupunha uma estreita ligação ao PCP. Assim como a sua participação na Festa do Avante! onde uma exposição por si organizada mostrou bem os laços políticos, ideológicos e culturais que o uniam ao Partido.
Escreve um divulgador da sua obra que Giacometti não era membro do PCP, apenas um «compagnon de route». Era muito mais do que isso, embora, durante algum tempo, o não pudesse publicamente admitir.
Mas essa classificação de «compagnon de route» – companheiro de estrada, expressão que os comunistas franceses usavam para designar alguns homens e mulheres de esquerda que simpatizavam com a política dos comunistas mas não eram membros do PCF – avivou o meu interesse. E corri à colecção do Avante! de 1990, encontrando o número de Novembro no qual toda uma página dava conta do falecimento do Michel e do funeral, em que Octávio Pato fizera uma «breve intervenção». Não consegui encontrar a intervenção desse dirigente, entretanto também já falecido. Mas valeu-me então Valdemar Santos, membro da Direcção da Organização Regional de Setúbal do PCP, camarada que trabalhou estreitamente com Giacometti durante todo o processo de instalação do Museu do Trabalho, que me garantiu que sim, o Michel era membro do Partido. E mostrou-me mesmo um documento, enviado por ele «aos camaradas da DORS», onde punha à consideração da Organização um projecto de criação de um Instituto Popular no distrito.
Não ficaram por aqui as minhas «pesquisas». Certamente que Giacometti apreciava os comunistas, o PCP e o seu projecto político. Certamente que era um homem não sectário, aberto à cooperação com gente de outros quadrantes de esquerda. Mas faltava o que aqui vai – a inscrição do camarada Michel Marie Giacometti, militante n.º 118611, na organização de Cascais, onde residia.
Só para que se saiba.
LM
Como em determinado tempo da minha juventude tive oportunidade de privar com Giacometti e de, mais tarde, poder revê-lo após o 25 de Abril e assim recordar com ele peripécias do seu trabalho passado e, sobretudo, de conversarmos sobre o processo revolucionário que então decorria, acompanhando-o de quando em vez numa ou noutra viagem, julgo oportuno deixar algumas precisões.
Que o Michel era comunista, embora no tempo do fascismo não pudéssemos, entre ambos, afirmá-lo, dadas as razões que obrigavam militantes e simpatizantes aos mais rigorosos cuidados conspirativos, foi coisa que sempre dei como certo. Recordo a sua viva simpatia pela revolução cubana, as confidências sobre como encarava o fascismo e a situação política em Portugal, a amizade e o trabalho que o ligavam ao Fernando Lopes-Graça, as cautelas, por um lado, que tomava acerca da apertada vigilância de que era alvo e, por outro lado, os comentários políticos que fazia. Para mim, jovem militante comunista, o Michel era um correlegionário.
Após o 25 de Abril muitas vezes o vi na Soeiro Pereira Gomes, onde vinha para um encontro ou uma reunião. E lembro-me mesmo da primeira vez que o encontrei na sala de convívio e de ter-lhe perguntado se já se havia inscrito no Partido. Disse-me que não. E explicou que nessa altura, a legislação – que a Revolução entretanto não modificara -, não permitia que um estrangeiro fosse membro de um qualquer partido em Portugal. Ao que me contou, a participação que teve em manifestações populares foi mesmo alvo de advertência por parte da polícia portuguesa.
Entretanto, o trabalho que desenvolvia, e que muitos camaradas acompanhavam de perto por iniciativa do próprio Giacometti, pressupunha uma estreita ligação ao PCP. Assim como a sua participação na Festa do Avante! onde uma exposição por si organizada mostrou bem os laços políticos, ideológicos e culturais que o uniam ao Partido.
Escreve um divulgador da sua obra que Giacometti não era membro do PCP, apenas um «compagnon de route». Era muito mais do que isso, embora, durante algum tempo, o não pudesse publicamente admitir.
Mas essa classificação de «compagnon de route» – companheiro de estrada, expressão que os comunistas franceses usavam para designar alguns homens e mulheres de esquerda que simpatizavam com a política dos comunistas mas não eram membros do PCF – avivou o meu interesse. E corri à colecção do Avante! de 1990, encontrando o número de Novembro no qual toda uma página dava conta do falecimento do Michel e do funeral, em que Octávio Pato fizera uma «breve intervenção». Não consegui encontrar a intervenção desse dirigente, entretanto também já falecido. Mas valeu-me então Valdemar Santos, membro da Direcção da Organização Regional de Setúbal do PCP, camarada que trabalhou estreitamente com Giacometti durante todo o processo de instalação do Museu do Trabalho, que me garantiu que sim, o Michel era membro do Partido. E mostrou-me mesmo um documento, enviado por ele «aos camaradas da DORS», onde punha à consideração da Organização um projecto de criação de um Instituto Popular no distrito.
Não ficaram por aqui as minhas «pesquisas». Certamente que Giacometti apreciava os comunistas, o PCP e o seu projecto político. Certamente que era um homem não sectário, aberto à cooperação com gente de outros quadrantes de esquerda. Mas faltava o que aqui vai – a inscrição do camarada Michel Marie Giacometti, militante n.º 118611, na organização de Cascais, onde residia.
Só para que se saiba.
LM